quinta-feira, 2 de julho de 2009

Jean Charles

Gênero: Drama
Duração: 93 min.
Roteiristas: Henrique Goldman e Marcelo Starobinas
Diretor: Henrique Goldman

Quem viu Princesa, um filme independente sobre a vida de travestis brasileiros em Milão, vai entender melhor a preocupação do diretor Henrique Goldman em recriar a história de Jean Charles de Menezes, imigrante brasileiro, assassinado pela polícia londrina confundido com um terrorista.

O cineasta paulista tem grande preferência por personagens deslocados ou simplesmente excluídos de seu meio, afinal ele conhece muito bem o drama e o conflito de desapego que os imigrantes passam (Henrique vive em Londres).

O roteiro assinado pelo próprio Henrique e por Marcelo Starobinas escancara, logo na cena de abertura, a pilantragem brasileira. Os dois personagens principais (Jean e Vivian) mentem para safar-se de uma situação que envolve a imigração: assunto extremamente delicado numa Londres amedrontada pela histeria do terrorismo em 2005.

Usando bastante material de arquivo jornalístico, Henrique vai montando o painel em volta de Jean.

Com excelentes enquadramentos e a brilhante trilha de Nitin Sawhney, ele mostra a alienação e a decadência da colônia dos brasileiros no exterior. O show de Sidney Magal (que na vida real foi de Zeca Pagodinho) torna evidente este empobrecimento. Dançarinas flácidas de biquíni estampando a bandeira brasileira; um “ídolo” gordo e inchado cantando sucessos das antigas e um equipamento técnico de 5ª categoria são os elementos usados para demonstrar como Jean Charles contentava-se com pouca coisa. A certa altura, Vivian grita que ele tem vergonha de ser quem é. E é verdade. Só o fato de, um mineiro sem futuro estar no “exterior”, já era suficiente para satisfazer o seu ideal.

Sem dúvida nenhuma, Jean Charles é um personagem enérgico, vibrante e sempre ligado numa oportunidade melhor, interpretado brilhantemente pelo onipresente Selton Mello (em cartaz atualmente em três filmes). Luiz Miranda interpreta o primo Alex, com uma profunda e tocante humanidade. Vários não atores vivem o seu próprio papel, tornando o filme mais visceral e realista.

Utilizando cortes secos e sintáticos, o drama de Jean é apresentado de forma objetiva e aceitável. O corpo (real) de Jean Charles morto, no vagão de metrô ao final do filme, causa arrepios.

Nas cenas da “volta ao Brasil”, imagens ensolaradas com um povo carinhoso, simples e caloroso, contrastam com uma Londres soturna e assustada apontando para o perigo real da sedução de “uma vida melhor”.

Sem conseguir conviver com o seu meio, os personagens buscam a satisfação da eterna utopia de felicidade. Londres é como uma sereia que encanta os imigrantes com suas falsas promessas de bem estar social e esconde a sua verdadeira intenção.

Jean Charles é um alerta para todo brasileiro que acredita que o “estrangeiro” é sempre o melhor caminho para prosperar na vida.

Nota: 8,5

Crítico: Ricardo Pinto

1 comentários:

Duvido que o Selton Mello tenha tido acesso a algum material em filmagem para ter alguma noção de como o tal Jean realmente era..seu jeito de andar, suas expressões... mas ainda assim, tenho qse certeza, que será fiel. Selton é um ator e tanto!

Assistirei... e posterior, procurarei esse post para dar uma opinião mais detalhada a cerca do filme.

2 de Julho de 2009 16:40  

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